Lembro-me de quando os Estados Unidos decidiram invadir o Iraque pela segunda vez eu estava em Ponta Delgada, mais precisamente, na Fajã de Baixo na mesma rua onde nascera Natália Correia. Encontrei um poema dela, imprimi e tirei fotocópias. Depois andei a colar o poema pela universidade toda, entrava num café e deixava o poema, e espalhei pela marginal folhas para o chão...aqui fica o poema:

Ode à Paz

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego,
dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia
in O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, II
JC a 20 de Setembro de 2008 às 20:34