Este poema de José Régio soa a um grito mudo!
Revela alguma angústia, desassossego, pincipalmente desassossego. A desilusão, descrença em tudo o que o rodeia, sentimentos confusos, desnorteio. E, ao mesmo tempo, mostra querer ir mais longe, uma busca apaixonada por chegar onde outros não pensam sequer em tentar chegar...

Gostei de "chocar" aqui com ele, gosto da mensagem e a Maria Bethânia fez uma interpretação à altura.

Partilho também um poema que me diz muito:

O que há em mim é sobretudo cansaço

"O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
Nessa a 27 de Setembro de 2008 às 21:21
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